POSSO LER PARA VOCÊ

POSSO LER  PARA VOCÊ



- No Dia da Poesia (14/3) de Vinícius de Moraes o seu

SONETO DO AMIGO


Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado. 

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo. 

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano. 

O amigo: um ser que a vida não explica 
Que só se vai ao ver outro nascer 
E o espelho de minha alma multiplica...
O meu Conto "Engano" com o qual fui classificada para a antologia do Mapa Cultural Paulista - Edição 2011/2012:








                                                                      ENGANO


O sol brilha e tenta aquecer meu corpo nesta manhã igual a tantas outras. Tarefa difícil para o sol: nunca mais me senti aquecido.

 Rostos, alguns familiares e outros não, passam por mim e seguem, procurando por algum outro rosto que, certamente, não é o meu.
 Olhos me olham sem me ver. Algumas bocas balbuciam um “olá”, outras simulam um meio sorriso e outras se calam.
Uma mão estendida me oferece um pedaço de bolo. Pelo aroma é bolo de fubá, era meu favorito, por um segundo me lembrei.
Lembrei do bolo assando... do cheiro do café terminando de coar e invadindo a cozinha... a mesa posta e em seguida o chamado: - “O bolo está pronto! Venham logo comer antes que esfrie”.
Nunca gostei do bolo quente, mas ia para a mesa assim mesmo; gostava da família ali reunida em volta da mesa, a conversar: a esposa reclamava da torneira pingando que eu não havia consertado. O filho contava entusiasmado sobre o jogo de futebol com os amigos da rua. Eu me divertia e prometia consertar a torneira. Prometia também assistir à próxima partida de futebol. Passava tempo sem fazer uma coisa e nem outra. Mas o dia chegava de consertar a torneira, de assistir ao futebol. Assim a vida ia:  feliz, os anos passavam naquela alegria simples... 
A cozinha aconchegava a família com bolo: a cozinha da casa nova, que tínhamos acabado de comprar: tivéramos sorte, a família proprietária precisava se mudar sem demora e a nós, recém chegados na cidade, pareceu um ótimo negócio. 
O preço do imóvel estava dentro de nossas possibilidades, nos pareceu até bem baixo pois a casa era boa, confortável e a esposa adorou a cozinha.
 - “Eles tem pressa, precisam se mudar sem demora.”  - nos disse o corretor. “Vocês estão com sorte, com muita sorte!” – afirmava ele sem parar.
Sorte! Sempre achei que tínhamos mesmo muita sorte. Uma família feliz: um casal, um bom filho adolescente. 
O casal que nos vendeu a casa também só tinha um filho adolescente. Não o conhecemos, estava na cidade em que moravam os avós, em tratamento, nos disseram eles. E não disseram mais nada.
Na semana seguinte, quando chegava do trabalho, já no início da noite; a rua estava movimentada: muita gente...polícia, ambulância...
Fui andando e minha garganta secando...minhas mãos suando geladas, meu corpo esfriando, nunca mais esquentou. 
Era lá: na minha nova casa. Tentavam me impedir de entrar, me seguravam em vão.
Cheguei na cozinha, a mesma do bolo de fubá. Lá estava ela: minha família. Desta vez não havia bolo, nem alegria. O sangue escorria de seus corpos e formava uma poça vermelha no chão. Tudo ficou escuro e frio, muito frio.
A polícia não encontrou o assassino. 
Então descobri o preço da casa: os antigos donos precisavam vende-la com urgência pois estavam fugindo, tentando esconder o filho que era viciado em drogas e tinha dívidas enormes com traficantes.
Eles, os traficantes, não souberam da mudança. Muito provavelmente encomendaram o serviço. E o serviço foi feito: mataram o adolescente que morava na casa e a mãe do garoto, que tentara impedir o serviço. 
Meu filho, minha esposa...
A polícia não encontrou o assassino. 
Eu o encontrei. Não foi difícil, mas demorou: uma eternidade de treze meses e sete dias. 
Não descansei um só momento, gastei tudo o que tinha, paguei muita gente. Gente boa, trabalhadora, que se dizia honesta; gente ruim, que não trabalhava e se dizia mesmo desonesta. 
Comprei muita informação: certa e errada. 
A polícia não encontrou o assassino. Eu o encontrei: ele já não fazia só o serviço, tinha progredido, agora era daqueles que mandava fazer. 
Eu o encontrei. Foi um tiro apenas, certeiro, no peito.
Então a polícia encontrou o assassino, na verdade: dois, um morto e um vivo.
O sol brilha e tenta aquecer meu corpo nesta manhã igual a tantas outras. 
É dia de visita no presídio e a mão estendida me oferece o bolo de fubá, mas não aceito: ele está frio e agora eu só gosto de bolo quente.






- O conto "ROUPA BRANCA", com o qual fui classificada no VI Concurso Literário de Presidente Prudente - compondo a antologia do VI CLIPP




ROUPA BRANCA


- Mamãe, quando crescer serei um marinheiro e usarei aquela roupa branca com chapéu amassado...
- Não se diz chapéu e sim quepe e para usar roupa branca não precisa ser marinheiro, pode ser...vamos ver: médico ou enfermeiro, ou...
- Mas mamãe, assim não irei todos os dias para o mar. E se for médico ou enfermeiro vou ficar preso num hospital e não gosto de ficar preso e também não gosto de hospital. Vou ser mesmo marinheiro e viver livre no mar, usando minha roupa branca e viajando de cidade em cidade, trocando só de navio. Vou ver os pássaros voando bem baixo para pegar peixes para o almoço e até eu poderei pegar peixes para o almoço. Vou ficar olhando o mar, às vezes verde, noutras azul, bem de pertinho e, se quiser, poderei mergulhar. Quando acordar, poderei olhar o mar e o céu, os dois se juntando lá longe e deixando muito espaço livre para quem quiser passar e...
- E... e...e...e está na hora da escola. Vamos logo para não se atrasar.
- Escola...Lá vou eu de novo. Aquela sala é muito pequena, a janela é muito alta, não consigo ver nada lá fora, nem dá para ver o céu. E o pátio: é só um quadradinho, fica todo mundo preso e amontoado e já faz anos que falo para você: aquilo parece uma prisão e não gosto de ficar preso lá.
- O que você entende de prisão menino? E já faz anos, mais ou menos cinco, que todos os dias escuto essa reclamação. Deixa de reclamar e pega a mochila. Aliás, mais uns quinze anos pegando a mochila e pronto: estará livre para usar sua roupa branca, ser um marinheiro e ir para o mar. Vai fechando a porta enquanto vou tirar o carro.... Não esquece o lanche, fiz torta de frango, ainda estará quentinha no intervalo.
- Oba, pelo menos a comida é boa naquela “prisão”!!!!
Esse lampejo de recordação me fez ver nesse jovem, que estão vestindo com a roupa branca, o meu menino.
Esse jovem é o meu menino.
Às vezes não reconheço o meu menino nele, mas sei que é ele. Sei que o meu menino e os seus sonhos estão escondidos, presos dentro dele.
Essa roupa branca com a qual o estão vestindo não é o seu uniforme de marinheiro e nem a liberdade sempre perseguida será encontrada para onde vão levá-lo, ao menos por ora.
Os gritos pararam. Colocaram nele a camisa e deram uma injeção. Foi se acalmando aos poucos. O puseram numa maca e agora ele já não luta pela liberdade.
Meu coração não está cabendo dentro do peito, está transbordando, explodindo de dor, de agonia.
Como gostaria que tudo fosse diferente. Quando foi que perdi meu menino? Quem exatamente o roubou de mim? Quando me distraí para permitir que o vício o transformasse tanto?
O rostinho redondo e os olhos brilhantes desapareceram e deram lugar a um rosto magro, sempre barbudo e com olhos vazios...
A alegria espontânea e a reclamação já não existem no meu menino. Deixaram em seus lugares um ser inerte, que já não se importa com coisa alguma.
Mas eu me importo por ele. Não permitirei que o vício, as drogas, os drogados e os traficantes me vençam.
Toda a minha força, todo meu dinheiro, tudo o que tenho dentro e fora de mim usarei para resgatar o meu menino.
Esse jovem sem vontade, sem coragem não é o filho amado e companheiro; é só um farrapo, como um corpo sem a alma, sem o espírito...
Por isto sou eu sua vontade, sua coragem, sua alma e seu espírito.
A dor de vê-lo sendo levado para a internação é nada, comparada à esperança de ver novamente a luz nos olhos do meu menino.
Meu menino cresceu, mas ainda poderá ser um marinheiro...ter sua liberdade...
A ambulância partiu.Tudo é silêncio e dor.
Na parede: seu retrato, quando seus olhos ainda brilhavam. É esse brilho que me dará forças para lutar e esperar por sua recuperação. Logo abaixo do retrato, escrevi: “O amor de mãe pode ser ainda mais forte, quando for corajoso!
E, por ora, tudo é mesmo: silêncio e dor.



O Lindo poema de Cecília Meireles A BAILARINA




Esta menina tão pequenina quer ser bailarina.Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá

mas inclina com o corpo para cá e para lá.Não conhece nem lá nem si mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
 e diz que caiu do céu.
Esta menina
 tão pequenina quer ser bailarina.Mas depois esquece todas as danças, e também quer dormir como as outras crianças.







A poesia delicada de meu amigo Marcos Antonio (Poeta):   Imagem




Peço ao espaço que
retorne a feição bela,
Que outrora meu sonho encantou,
Peço ao tempo, suspirando firmemente,
Para no ermo das angústias
superar o pavor.

E despi com silêncio na fraqueza,
Cordial rio responde sussurrante,
Remédio à saudade é o amor.





A linda Poesia: Motivo de Cecília Meireles: 




Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.


E poderia ler para você um pedacinho do meu livro "Para
 sempre" (Regina Prieto)





Paulo parou o veículo. Desceu pegando o filho nos braços e andou com ele por alguns metros porém, quando se aproximavam do local, Gabriel lhe disse:
-Obrigado, papai! Eu te amo muito. Pode deixar que eu brinque um pouquinho com elas?
Paulo colocou no chão o filho que lhe dirigiu um olhar agradecido e correu em direção às crianças.
Os pais nunca souberam o que Gabriel conversou com elas durante os quarenta minutos que permaneceu na companhia das mesmas. 
                       Paulo, de onde estava, só pôde observar os rostinhos virados em direção a Gabriel e os olhinhos que fitavam seu filho atentamente e também que todos, inclusive o filho, sorriam muito. 
Os pais observavam a tudo da beira da estrada, onde esperavam pelo garoto. E, silenciosamente, refletiam sobre o fato de que uma criança percebera o que muitos adultos não conseguiam perceber ou não admitiam, ou não queriam admitir: a tristeza e a urgência que existe na pobreza extrema....
                      Depois, Gabriel abraçou e beijou a todas; tirou toda a sua roupa e os sapatos e dividiu entre elas, voltando correndo, nu, para os braços do pai, que o carregou, sem dizer nada, de volta ao carro.
                       Entregou o filho nos braços da mãe. Sílvia abraçou fortemente o menino e sentiu em seu coração um misto de alegria e tristeza.
                       A mãe vestiu o garoto e seguiram viagem, sem que Gabriel ou seus pais pronunciassem sequer uma palavra; não havia o que dizer, os fatos estavam gritando, mas são poucos os que escutam. Gabriel também não deu nenhum sorriso, era como se a paisagem, que tanto o encantara, houvesse desaparecido.




Eu poderia ler para você. E poderia ler para minhas filhas Vanessa e Gabriela, todas as noites, antes de elas dormirem, e pediria para que você lesse para alguma criança um pequeno trecho dessa maravilhosa obra de Antoine de Saint-Exupèry: "O Pequeno Príncipe"


É triste esquecer um amigo. Nem todo o mundo tem amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que só se interessam por números. Foi por causa disso que comprei uma caixa de tintas e alguns lápis também. É duro pôr-se a desenhar na minha idade, quando nunca se fez outra tentativa além das jiboias fechadas e abertas dos longínquos seis anos! Experimentarei, é claro, fazer os retratos mais parecidos que puder. Mas não tenho muita esperança de conseguir. Um desenho parece passável; outro, já é inteiramente diverso. Engano-me também no tamanho. Ora o principezinho está muito grande, ora pequeno demais. Hesito também quanto à cor do seu traje. Vou arriscando então, aqui e ali. Enganar-me-ei provavelmente em detalhes dos mais importantes. Mas é preciso desculpar. Meu amigo nunca dava explicações. Julgava-me talvez semelhante a ele. Mas, infelizmente, não sei ver carneiro através de caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci.















E poderia ler para você um trechinho do meu Tudo Posso aos Quinze Anos:


... Depois desse episódio, as coisas se acalmaram um pouco em casa. Continuei amiga da Pri, é claro! Só que, por coincidência ou não, como comecei a ir para a academia fiz novas amizades, expandindo meus horizontes, como tanto queria minha mãe. Isso fez os ânimos se acalmarem.
                        Aconteceu também que ganhei um livro da minha tia Ana, irmã da minha mãe, ela sempre vem passar uns dias aqui em casa e traz presentes legais para nós. Num dia em que eu não estava muito legal, achando que minha vida era uma droga, muito sem graça; peguei o livro para ler e não consegui largar. O livro na verdade é um diário de uma garota que viveu durante a segunda guerra mundial: “O Diário de Anne Frank”; era uma garota de treze anos que ficou escondida com sua família e outras pessoas durante uma ocupação nazista. Anne era uma menina lindíssima (foi como a vi enquanto lia o livro); alegre e cheia de sonhos. Enquanto se escondia, em meio a ratos, pouquíssimo espaço e quase nenhuma comida; ela contava no diário tudo o que passava, o que pensava e o que sentia. O sentir de Anne Frank me tocou profundamente, porque ela sentia esperança, alegria, amor à vida, e muita fé. Pude dizer quando terminei o livro: sou mesmo uma pessoa de sorte e feliz. Acreditem: aquela leitura me tocou profundamente e mudou a minha vida, ou melhor, mudou a maneira que eu via a minha vida; passei a vê-la com muito bons olhos. 
                        Eu sempre gostei de ler e também de assistir filmes, mas depois desse livro: “O Diário de Anne Frank”, passei a querer ler coisas de vida de verdade; procurava filmes de fatos verídicos e também comecei a ler biografias. Fiquei com uma vontade de melhorar o mundo, se bem que muita gente pensa que isso de melhorar o mundo é utopia, coisa de gente que só sonha e não faz nada. Eu não acho! Li a biografia de “Mahatma Gandhi”, nossa, me arrepiou: um homem rico, culto, inteligente, poderia viver onde quisesse e como quisesse e resolveu viver por um mundo melhor: quantas mudanças e batalhas ele venceu, sem sequer nunca pegar numa arma; ele melhorou a vida de milhares de pessoas e conquistou direitos para outras milhares. Com sua “satyagraha” (sua filosofia da não violência – sua desobediência civil) ; com sua “marcha do sal” , tantas vitórias alcançou.
                        Até ler a biografia de Gandhi eu ainda não havia parado para pensar sobre o fato de que pessoas passam fome e isso doeu em mim, doeu mesmo.
                        Bom, o ano passou rapidézimo e logo chegaram as provas finais.
                      Eu estava num estresse enorme. A escola estava muito puxada. Fiquei de recuperação, pela primeira vez na minha vida. Meu, eu odiei isso. Tive que agüentar mais uma semana de encheção de saco. Mas...: me esforcei e, passei de ano! Já a Pri: Coitada! Não Conseguiu passar...

                                 


Meu texto: Estrela Cadente

Sim, já vi caírem do céu estrelas. Mais de uma vez... enfim, muitas vezes.
Já fiz pedidos a elas...todas as vezes...
 Meus pedidos acontecem, meus sonhos se realizam em todas as vezes.
Olho para o céu quando estou feliz; às vezes abro os braços deitada na relva, e fico a observar as estrelas, o modo como brilham e iluminam, tornam esplendoroso meu momento de felicidade.
 Quando então, de repente, quase num passe de mágica, rápida como um sorriso de canto os lábios,  cai do céu a estrela e brinda minha felicidade. Imediatamente peço: - “Que minha vida tenha sempre momentos felizes, brilhantes e cheio de paz.”
Também olho para o céu quando estou triste, fico a observar as estrelas, o brilho delas ilumina meu momento de treva e tristeza.
Quando, então, rápida como uma lágrima que rola pela face de quem já não segura a dor, cai do céu a estrela e vem ao encontro da minha dor. Imediatamente peço: “Leva contigo essa dor e que minha vida seja sempre feliz, brilhante e cheia de paz.
Sim, sempre vejo estrelas cadentes.  


EU PODERIA LER PARA VOCÊ TUDO E QUALQUER COISA DE RUBEM ALVES, POR ORA, O TEXTO ABAIXO:

As praias, no inverno, são mais bonitas. Vocês já viram uma vaca coberta de carrapatos? É algo de dar dó... Pois assim são as praias no verão: os milhares de pessoas são carrapatos que infestam as areias brancas. No inverno, as praias são lisas, solitárias. Quase ninguém. Parece que os homens têm medo da solidão. Gostam mesmo é do falatório, do agito, do som... Prefiro a música do mar e do vento porque ela faz eco na minha alma. Não se ouvem vozes humanas. Apenas o pio dos pássaros. E os pensamentos vêm mansamente. Águas vivas mortas – seria inútil jogá-las no mar novamente. Eram bonitas vivas, flutuando transparentes... Caranguejos de olhos saltados, andando de lado, fugindo para os buracos na areia. Parecem-se com certas pessoas que não conseguem andar para frente... Catar conchinhas... Eis aí uma deliciosa brincadeira para quem deseja ser escritor. A alma é um grande mar que vai depositando conchinhas no pensamento. É preciso guardá-las. Quem deseja ser escritor há de aprender com as crianças a catar conchinhas, pensamentos avulsos como esses com que estou brincando, e guardá-los num caderninho. De Camus, o livro que mais amo - e por isso mesmo releio sempre - são os seus Cadernos da juventude. Ali, ele anotava o vôo dos pássaros, uma trovoada, uma nesga azul no céu de tempestade, uma citação que lhe vinha à cabeça, um diálogo entre marido e mulher. Nietzsche também colecionava conchinhas que ele transformava em aforismos. O problema com os aprendizes é que eles pensam que literatura se faz com coisas importantes. O que torna a conchinha importante não é o seu tamanho mas o fato de que alguém a cata da areia e a mostra para quem não a viu: “Veja...” Literatura é mostrar conchinhas...

Rubem Alves
Texto extraído do livro "Ostra feliz não faz pérola"

Nenhum comentário:

Postar um comentário